Nós odiamos indios
Recentemente, uma das minhas jornadas dionisíacas se sintetizava na exposição do coletivo Lakapoy, intitulada “Gentes de Verdade” no Instituto Moreira Sales (IMS). Que assim narra as tradições, história e cotidiano do povo Paiter Suruí. Em caráter técnicos e representativos a exposição era perfeita, um cuidado primoroso na fotografia, na representação, na enumeração. Entretanto me chama a atenção um detalhe, na fotografia, eles não têm nome. Em nem um momento (ao menos que eu me lembre) é ao menos citado o nome de alguém do povo Paiter Suruí. Quiçá uma trama para tal fato foi posta, indicando uma coletividade de tal povo de modo que até o individualismo do nome seja desnecessário ou apenas pouco caso. Mas o fato é que em uma cidade cosmopolita como São Paulo, o nome é uma unidade comunicativa essencial e básica, quando suprimida a pessoa deixa de ter valor individual concreto para cair numa abstração vazia. Sendo assim como em uma exposição do IMS de uma forma abrangente, sem se atentar na humanidade desses indivíduos tipifica-os em uma única identidade
Não é de hoje que culturas estrangeiras à ocidental têm ganhado valor em bolhas naturalistas dos meios urbanos, grupos de “esquerdo machos”, entre muitos outros. Muitos buscando uma forma diferente da ocidental de participar do mundo. Desse modo a cultura indígena (muitas vezes representada de forma genérica e até preconceituosa) é vista como uma forma reinterpretar o mundo na dialética do sujeito e do objeto.
Nos tempos epopeicos até o renascimento, o ser formava uma união solida e maciça com o mundo, as ideias e paradigmas que cercavam o homem garantiam a centralidade e excepcionalidade da raça humana. Com tudo as feridas narcísicas iniciadas por copérnico removiam o sujeito de sua centralidade e excepcionalidade. Nós deixávamos de ser centro para ser periferia, de ótimo para trágico. Assim rompemos a solidez da união do ser-mundo, agora somos insignificantes, vazios de sentido e proposito. Portanto o mundo deixa de ser figura par ser representação.
Com o passar da modernidade o mundo passa a ser criado a partir da subjetivação do objeto pelo sujeito a princípio de uma intuição do espírito (Geist). Assim a vida concreta deixa de ser realizadora e passa a ser ausente de proposito. Desse modo a criação do mundo pelo espírito se torna um objetivo de modo a enfrentar o abismo do ser-mundo. Assim buscamos propósitos, um Deus, de modo a nos dizer que somos o centro, somos excepcionais. Entretanto Deus está morto.
Buscamos a todo custo preencher esse vazio existencial, essa forma de não-pertencimento ao mundo. Uns sucumbem ao niilismo, outros criam seu próprio sentido e agora outros bucam em outros culturas aquilo que lhe falta, principalmente a indígena.
Uma epstemologia indígena não separa o ser do mundo, sendo ele pertencente, parte, ao mundo e não alheio a ele. O mundo é uno, síntese e orgânico, nos somos produto e reagente, parte e todo. E por essa relação ser orgânica que é incompatível com o dominante meaníssimo. A forma natural não demarca uma hierarquia, não elenca e nem lineariza, traços modernos que são ausentes. Por isso comumente associados como inferiores.
Nós no abismo entre o ser e o mundo buscamos em outas culturas uma centralidade narcísica (não à ferida copernicana) e nisso bucamos nos indígenas uma forma de enfrentar esse vazio pelo fato deles deterem uma outra forma de pensar tipicamente atrelada como inferior. Desprezamos e por desprezamos que fingimos que admiramos. Um desdém dissimulado de maravilhamento.

